Brasil se ressente de anos de atraso na formação da elite do conhecimento

Aos 23 anos, a mineira Luísa Peconick sonha alto. Nem bem terminou o curso de biologia da Universidade de Brasília (UnB), começou um mestrado na instituição. Apesar de dedicar quase todo o tempo de estudo à virulência de um gene específico de um fungo, já prepara caminho para fazer um doutorado no exterior. “Na área de biologia, não há muitas oportunidades para estudantes que só têm o diploma de graduação”, explica. “Por isso, estudamos tanto. A dedicação é absoluta. Às vezes, as pesquisas adentram os fins de semana e feriados”, diz. Tanto comprometimento lhe rendeu uma bolsa, de R$ 1,2 mil mensais, bancada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

O carioca Marcus Cardoso, 36 anos, tem a clara noção do esforço despendido na última década para alcançar o mais elevado grau de educação. Convencido de que o seu lugar era na universidade, ingressou, em 2003, em um mestrado na área de antropologia. Terminada essa etapa, partiu para o doutorado, concluído no ano retrasado. Agora, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), está mergulhado nos livros para disputar uma vaga de pós-doutorado fora do País. Os anos pesados de estudo não lhe tiram o bom humor, sobretudo porque, na sua avaliação, finalmente o Brasil está acordando para a necessidade de formar o que há de melhor em todas as profissões.

Os casos de Luísa e de Marcus deveriam ser rotineiros em um país que alcançou o posto de sexta maior economia do planeta. Mas, infelizmente, configuram quase exceções. Em número de doutores, o País continua atrás de muitas economias menores, com uma média de 1,4 graduado para cada mil habitantes. Ganha apenas da vizinha Argentina, com uma relação de 0,2, conforme levantamento da Capes para o Plano Nacional de Pós-Graduação (PNPG) até 2020. A maior referência é a Suíça, com 23 doutores para cada mil habitantes. Em segundo lugar está a Alemanha, com 15,4, seguida pelos Estados Unidos, com 8,4.

“No ritmo atual, só conseguiremos alcançar níveis como os da Austrália e do Canadá, de 5,9 e 6,5 doutores para cada mil habitantes, respectivamente, em 2025. E, com muita sorte, até 2050, nos equipararemos à Suíça de hoje”, diz o presidente da Capes, Jorge Guimarães.

Não será tarefa fácil. Com um total de 12 mil doutores e 40 mil mestres titulados no ano passado, várias universidades já enfrentam dificuldades para completar seus quadros. “A rede privada está desesperada para cumprir as exigências do Ministério da Educação de se ter, no mínimo, um terço do quadro de professores com mestrado e doutorado”, afirma Rodrigo Capelato, diretor executivo do Sindicato das Entidades de Estabelecimentos de Ensino Superior do Estado de São Paulo (Semesp). “E não está sendo diferente nas universidades públicas”, acrescenta.

Desafios

Não bastasse a escassez de doutores nas universidades, também a indústria se ressente da falta de profissionais para tocar programas de pesquisa e inovação, como é comum nas economias desenvolvidas e na maior parte das nações emergentes. “No Brasil, cerca de 70% dos doutores estão na educação e 11% na administração pública. Mudar esse quadro é um dos maiores desafios para o desenvolvimento da economia do País”, ressalta Glaucius Oliva, presidente do CNPq. A virada tão necessária, porém, terá de começar na base da pirâmide, pois, mesmo com os avanços no combate à evasão escolar e com os investimentos em novas universidades públicas e em programas de bolsas para estudos no exterior, o Brasil ostenta 60% de analfabetos funcionais, pessoas que sabem ler, mas têm dificuldades para interpretar um texto.

“Esse é um dos motivos para tanta evasão nas universidades e para o deficit de profissionais que a economia tanto necessita” destaca Guimarães, da Capes. Nos cursos de engenharia, por exemplo, 65% dos alunos matriculados desistem no meio do caminho por não conseguirem acompanhar as aulas. Trata-se de um quadro inaceitável que empurra o Brasil para o 47º lugar na lista dos países mais inovadores do mundo, mesmo sendo o 13º maior produtor de trabalhos científicos.

A hora da virada, acredita Glaucius Oliva, é agora. O Governo não pode fracassar no projeto lançado em agosto do ano passado, o Ciência Sem Fronteiras, que tem como meta enviar 100 mil estudantes a universidades estrangeiras até 2014. A frustração custará anos de atraso para o País, conforme o último capítulo desta série. Dados do Institute of International Education (IIE) mostram que, em 2011, o Brasil enviou apenas 8,7 mil estudantes de pós-graduação para os EUA, contra 157,5 mil da China e 103,8 mil da Índia.

Fonte: Correio Braziliense (Rosana Hessel - adaptado por Melissa Miziara - Polo de Excelência em Genética Bovina)

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